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Faz algum tempo que venho sentindo isso e, para ser sincero, quase um mês. Parece ressaca existencial. Parece que tomei algum baseado e estou sentindo o efeito colateral até agora. Cheguei a imaginar que a causa seria uma overdose da minha própria intransigência, mas depois, analisando bem o meu caso, percebo que intolerância não é sintoma de chegar a um conflito tão extremo comigo mesmo, afinal, intolerância pode ser algo bom.

Cheguei a pensar que alguma coisa estava fora do lugar, pensei que fosse excesso de informação ou de exposição — excesso de mim mesmo. Mas dessa vez não era excesso de pensar ou de tentar entender o que me acontece, alguma coisa diferente estava me incomodando e precisava descobrir o que era.

Algumas semanas atrás acordei indisposto. Peguei um livro não consegue ler. Decidido então a ver um filme, mas que filme? Pensei em ligar a TV, mas ver o quê? Naquela discussão comigo mesmo, entediado pelo fato de nada querer, de nada estar interessado, nem uma música me ajudou. Até que desisti, voltei a dormir.

Cheguei a pensar que essa minha indisposição de levantar, de respirar, era o efeito do remédio que estou tomando. Consulto a bula e descubro que o medicamento pode dar sonolência, ânsia de vômito e dores pelo corpo. Viver passa por esse processo: melhora por um lado e piora o outro, fazer o quê? Não contente com essa descoberta e na insistência de outra possibilidade, fui procurar outros mecanismos, mas nada que eu procura explicava o que eu estava sentindo, até ouvir uma música italiana que falava sobre como é sair de um passado carregado de ingenuidade e embarcar para outra idade. E como é difícil procurar respostas quando as coisas são pouco claras. De repente me senti como a mesma personagem da música, ao contrário de mim, a personagem aprendeu a fazer companhia para si mesma, mas para isso ela precisou morrer. Falei em morte?

 

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A resposta do que eu estava sentindo se encaixou depois que tive um sonho com minha própria morte. Todos a minha volta chorando pelo fato de eu ter morrido. Era eu mesmo naquele caixão, naquele lugar restrito. Só então fiz uma ligação quando assisti à entrevista de Viviane Mosé quando dizia: “o sofrimento tem um processo no nosso corpo ele começa e termina”. Somos esse processo de construção, só que no meu caso, segundo a psicanálise, diz que é fim de um ciclo, de um período.

Desconstrução talvez seja isso: desapegar de alguns hábitos, de algumas manias e se reconhecer como seres imperfeitos e limitados. Desconstruir algumas verdades ditas como inatingíveis, parar de se consumir tanto e dar uma olhada para fora, esquecer um pouco o “eu” e pensar mais no todo. Talvez essa desconstrução não seja relativa à escada que vamos fazendo durante a vida ou as paredes que vamos levantando, mas talvez seja desconstrução da própria existência. Talvez esse existencialismo seja apenas o recomeço de uma nova fase. Assim como o sofrimento tem um período de nascer e morrer. O mesmo deve acontecer com nós: desconstruir para fazer uma nova construção.




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