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Todos somos um pouco Neymar

“Eu caí. Mas só quem cai, pode se levantar. Você pode continuar jogando pedra. Ou pode jogar essas pedras fora e me ajudar a ficar de pé”.

Não dá para negar. O texto foi como uma jogada de craque. Tinha tudo para driblar a imprensa especializada, marcando um gol de placa que calaria os cornetas de plantão. Mas como homem que diz ser, o atacante do PSG, deve ter visto uma imagem distorcida no espelho que mais lembrou o garoto da Vila.

Ao parecer humilde no comercial financiado por uma conhecida lâmina de barbear ele não cai, mas deixa desmoronar a pouca moral que ainda restava e, como aquela dor da trava da chuteira na panturrilha que diz ter sofrido, decepcionou geral; do torcedor fanático ao ex-jogador de futebol.

Em primeira pessoa, o vídeo foi vinculado no horário nobre de um domingo. No tom de desabafo, o garoto de Mogi das Cruzes tenta evidenciar as dores e dificuldades de ser craque, mesmo que um dos mais bem pagos do mundo do futebol.

Aos 44 do segundo tempo, quando o telespectador estava quase sendo sequestrado pela emoção do vídeo, vem o informe publicitário e Neymar deixa a tela como saiu da Copa, caído. Mais uma vez levando o título de menino mimado, Neymar volta a ser alvo de duras críticas. Algumas exageradas como suas encenações em campo.

Pensando cá com meus botões, concluo que o futebol não é o único reduto de adultos que se comportam como adolescentes. Comportamentos semelhantes às do ex-menino da Vila são comuns em outras áreas. Imaturidade que chama, não é?

E como contrariar o rótulo de mimado atribuído a um homem de 26 anos, milionário bem-sucedido, que supervaloriza todas as dores e tenta se esvair das frustrações?

Garoto Neymar é a personificação de males a que muitos de nós sofremos: a promessa de mudanças de postura que quase nunca conseguimos colocar em prática. “Demorei a me transformar em um novo homem”.

 

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Acontece que nenhum “novo homem” nasce de afagos, paternalismo e parcimônia. A gestão profissional baseada em valores familiares impede diferenciar questionamentos injustos de críticas construtivas.

Viver em uma bolha, nos dá a sensação de estar em um lugar quente e protegido, mas também de sermos como eternos perseguidos e, para combater inimigos, só se for como uma dose extra de superproteção. Isso explica a incapacidade que 99,9% das pessoas têm de lidar com desapontamentos.

Assim como a sociedade, Neymar precisa se despir do excesso de individualismo em nome de um coletivo forte que tire de suas costas o peso da responsabilidade. Sem propaganda enganosa, como sugere o texto publicitário.
Ou talvez tenha chegado a hora de rirmos de nós mesmos e não levarmos as críticas tão à sério assim. Assim como o futebol, a vida precisa de sentimentos genuínos e reações espontâneas, não de discursos prontos em forma de desabafo patrocinado.




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