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O amor escrito pelo destino no obituário

Vou tentar escrever sobre esse assunto sem ser piegas. Falar em destino e no acaso como armadinhas do amor é sempre complicado. Ainda mais nos dias de hoje. Mas foi em uma dessas sessões de ócio criativo que me imaginei fazendo outras escolhas, substituindo o ponto e vírgula pela reticencias em histórias que até caberiam um final feliz.
Nessas horas me lembro das sei lá quantas vezes que, de cara virada com minha autoestima, preferi me trancar no quarto a curtir aquele role. E se justamente naquela noite os astros estivessem conspirando a meu favor, com a interação planetária entre Saturno e Júpiter?

Aperta meu coração pensar que poderia ter ficado e tomado mais uma antes de seguir em retirada. Vai saber se não protagonizei o desencontro mais certo de toda minha vida, para encontrar no semáforo a caminho de casa, aquele encontro vacilão e traumático.

O tempo tem passado por cima das minhas vontades e, começo a suspeitar que pelo caminho, devo ter deixado cair alguma coisa de perda irreparável. A coragem, talvez. A loucura, quem sabe. E sem essas virtudes fica mesmo difícil, quase que impossível, voltar a acreditar naquele encontro de alma ‘maneira’, capaz de arrancar algo de bom em mim.
Não sei se quando o assunto é amor o raio cai duas vezes no mesmo lugar. Mas pode ter passado de raspão pela minha janela, que há tempos estava fechada. Ou pode ter batido à minha porta e, cansada que estava, preferi me concentrar em coisas mais banais e menos trabalhosas.

Há probabilidades estatísticas para a busca do amor, você sabia disso? Pessoas que se encontram em aeroportos têm 73% mais chances de se apaixonarem que as pessoas que se encontram em outros lugares. Minhas últimas sete viagens foram de carro, de trem ou de carona.

 

Leia também: O amor e a associação de posse

 

Tem mais: pessoas que se esbarram pelo menos três vezes de maneiras diferentes em menos de 24 horas tem 98% de chances de se encontrarem de novo. Mas eu posso ter perdido a chance, meu tempo pode ter acabado…
Neste momento bate um bloqueio e não consigo mais escrever…

Penso no texto que deixaria sobre mim quando morresse e me lembro dos gregos que não escreviam obituários. Eles apenas faziam uma pergunta depois que um homem morria: ele teve uma paixão?

Obituário:

Márcia Mazzei.

Uma jornalista que definitivamente não sabia fazer outra coisa.

Morreu esta manhã por complicações causadas pela perda da sua alma gêmea.

Tinha 45 anos.

De fala atropelada e teimosia nata, Márcia não tinha fama de apaixonada irrecuperável, mas nos últimos anos de sua vida, revelou um lado desconhecido de sua personalidade. Essa ‘persona’ quase yunguiana oculta, desabrochou durante uma perseguição tipo Agatha Christie pela sua alma gêmea, com quem passou poucas e preciosas horas. Infelizmente, essa busca incansável acabou tarde, na noite do sábado, em total e absoluto fracasso.

Mesmo assim, apesar de certa derrota, a corajosa Márcia apegou-se a crença de que a vida não é meramente uma sequência de acasos e consequências insignificantes. É, antes, uma trama de eventos que culmina em delicado plano sublime.

Perguntado sobre sua perda ao amigo, o ganhador do Prêmio Pulitzer e editor-chefe do New York Times, Leandro Salgentelli, descreveu Márcia como uma mulher mudada.

“Nos últimos dias de sua vida as coisas ficaram mais claras para ela. Enfim, Márcia concluiu que para ficarmos em harmonia com o Universo é preciso ter uma fé imensa no que os antigos chamavam de fato. Aqui hoje em dia chamamos de destino”.




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