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O amor e a associação de posse

Foi espantoso assistir ao vídeo da advogada Tatiane Spitzner, de 29 anos, sendo agredida por seu marido Luis Felipe Manvailer. O caso ganhou relevância na Imprensa nacional e internacional. Todos sabem o desfecho dessa história – que infelizmente não será a última.

O curioso é que dias após o ocorrido saiu o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que apontou que só em 2017 foram registrados 63.880 homicídios, o que equivale a 175 pessoas assassinadas por dia. Houve um aumento de 2,9% se comparado a 2016. Destas mortes, 4.539 vítimas eram mulheres e 1.133 foram feminicídios.

O jornal El País chegou a divulgar que no Brasil matam-se mais cidadãos que em muitos países em guerra. Realmente, os dados são preocupantes.

A ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou ainda que os estupros em 2017 cresceram 8,4% em relação a 2016. Foram 60.018 estupros somente em 2017. Já os registros de violência doméstica em 2017 foram de 221.238, o que equivale a 606 casos por dia.

Diante desses dados, quero chamar atenção para os números de violência doméstica e feminicídio. Porque à medida que esses números aumentam se faz necessário refletir se a Lei Maria da Penha, que dia 7 de agosto completou 12 anos, tem cumprido seu papel.

A violência doméstica e o feminicídio recaem sobre uma estrutura cultural enfadonha e o Estado perde o controle quando não oferece proteção às mulheres. Assim como as denúncias tem servido mais de estatística que solução para os casos.

As perguntas são diversas, todas possuem consistências e relevâncias, mas antes de perguntar o porquê da violência, é preciso sublinhar: por que a violência e o que leva a aceitação dela.

Basta que observemos os relacionamentos longínquos e os de média duração que veremos a aceitação do absurdo. O que pra mim ficou claro é que tem sido difícil diferenciar amor de posse. O que também tem sido difícil identificar o abuso moral – que geralmente começa pelos gestos “que roupa é essa”, “com que você vai”, “onde você estava”, “por que não me avisou”.

Numa análise totalmente intimista, 60% das mulheres que conheço e que convivo já estiveram em um relacionamento abusivo. E 40% dessas mulheres, quando identifiquei que estavam em um relacionamento abusivo não sabiam o que era ou faziam associação de abuso com estupro e agressão física. O que é um grave problema: porque abuso nem sempre está ligado à agressão física e ao estupro. E o mais grave de todos os problemas: o não saber identificar o abuso está intrinsicamente ligado ao não saber o limite do próprio corpo.

Mas é sempre bom ressaltar: relacionamento abusivo está atrelado ao machismo estrutural, a objetificação do corpo da mulher, a ideia de superioridade e controle que o homem acha que tem. Muitos relacionamentos são mantidos sob abuso psicológico, pois há um controle da autoestima da mulher – sem contar que a falta de perspectiva também é um agravante por discussões do tipo “eu pago suas contas”. É um cenário muito mais perturbador do que só a falta de discernimento do que pode ou não ser tolerado.

 

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E em paralelo a isso, a cultura da maternidade, a cultura da família, a romantização das brigas e o ciúme excessivo tem contribuído para a mulher tolerar um relacionamento abusivo. E esse agravante cultural recai sobre a ideia de que é melhor com do que sem.

Por outro lado, a relação entre amor e posse é uma linha tênue. Um tem recaído sobre o outro de uma maneira assombrosa – o que nos faz pensar se não devemos rever esse modelo de amar. Porque até aqui os relacionamentos tem estabelecidos os papeis de dominantes e dominados. Essa relação de poder não é nova, mas tem reforçado os índices de feminicídio.

E como se não bastasse a omissão do Estado, da cultura machista, da cultura da maternidade: nós todos contribuímos para esses índices. Porque ao metermos a colher numa briga de casal, o procedimento que se passa adiante é para que sentem e conversem, ou pior ainda, presume que o sexo é a fonte para reatar um relacionamento que já é falido. Isso é doentio, não deve ser nem de longe romantizado ou visto como normal. E no pior das hipóteses, o pior de tudo, que não é menos importante, é quando há uma criança observando o abuso, a agressão, a alteração da voz, a chantagem emocional.

O feminicídio é o encerramento da barbárie, mas que ao analisarmos, começa bem antes: na humilhação e na violência verbal e física. Porque depois da morte, que é o fim e o amém da atrocidade, não há nada mais repugnante e imoral do que ouvir: ninguém nunca vai te amar como eu te amo.




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