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As voltas que a vida dá

Já aconteceu de você num determinado momento da vida se observar realizando tarefas que tinha prometido que não iria mais fazer, indo a lugares que tinha prometido que não iria mais voltar, dizendo coisas que já nem combina mais com seu jeito de levar a vida? Até mesmo com seu parceiro, vocês sempre brigam pelas mesmas coisas e a reconciliação acontece sempre pelo mesmo motivo e do mesmo jeito?

Minha ficha caiu quando passei a observar que estava andando em círculos. E foi numa conversa com uma amiga que tudo se deu. Sentado numa mesa de bar, falamos sobre a mesma coisa que havíamos falado semanas atrás. Me peguei zonzo por não haver um estupor.

Li em algum lugar que a gente deve sempre que possível renovar os motivos das nossas conversas, inclusive discussões. Me parece degustativo, mas um tanto complexo e utópico.  

A gente se rende muito fácil ao repeteco. E percebo que essa invariação faz aumentar ainda mais a angústia que carregamos todos. Isso explica também nossa falta de humor, de perspectiva, de vontade de viver. A síndrome da repetição é álibi da nossa carcaça, do nosso zumbi ambulante que de tanto se repetir atravessa os dias sem observar o que acontece ao redor. Essa monotonia tem tirado o fôlego e é fato que tem sido difícil mesmo capturar o novo num mundo que cada vez mais se mostra constante.

E, nesse caos todo que tenho vivido, observo que a vida está frenética ao ponto de não observamos o outro. A mulher que senta ao nosso lado no banco do ônibus, o empacotador do supermercado, a garçonete do restaurante, o garoto andando de bicicleta. O dia nasce e todos correm para o trabalho, à noite chega e todos correm pra casa.

O trânsito tem se mostrado tal como a vida é: que vivemos numa prisão a céu aberto, cuja rotina alimenta nossa convicção de que tudo que fazemos é para um bem maior. Com isso, passamos a acreditar também que os nossos problemas e as nossas neuras estão no centro das atenções. Que o mundo gira ao nosso redor, e nos foge a compreensão de que somos um fiapo no meio de tantos fiapos.

Para aplacar nossa demência – ou fingir que está tudo bem – as selfies e os likes cumprem o papel de dar existencialismo, porém máscara as nossas angústias, os nossos choros inconfessos – a verdadeira pessoa que somos, que geralmente se revela quando ninguém está por perto.

 

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Alguns acreditam que ao fazer isso dá-se uma pincelada no cotidiano, outras acreditam que nada disso confere valor. Não sou a favor nem contra. Cada um sabe de si. Minha única preocupação é que perdemos a noção de finitude e a repetição nos tira a importância de se ter uma vida como se gosta. Esse insight me levou a perceber que a exaustão tem nos tirado também a espontaneidade.

Mas deixei esses pensamentos todos de lado e conversei com minha amiga sobre os mesmos assuntos de sempre. Acenei pro garçom, que logo compreendeu à distância: o de sempre, por favor.




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