Junho chegou, e já começou a aplicação de uma espécie de anestesia coletiva. Coisa que vai levar o encéfalo a uma letargia temporária. O despertar não está programado. Logo começa a Copa do Mundo, assunto para quase 200 milhões de técnicos no Brasil. Altares e incensos a Neymar e companhia.

É tudo que nossos políticos precisam – serem esquecidos. Pelo menos durante um mês. Tempo suficiente para aprovar o que lhes interessa. Tempo para roubar um pouco mais, sem que ninguém dê conta. Olhos, ouvidos e coração estarão pregados na TV. Aplaudindo, gritando e até chorando a cada drible ou a cada gol.

Nada será mais importante do que uma fala de Tite. Nada mais uurgente do que saber se Neymar vai ou não jogar. O país do futebol, na visão dos compositores. A pátria de chuteiras, segundo o falecido jornalista Armando Nogueira. A dose dessa anestesia é cavalar, mastodôntica.

Não faltarão camisas amarelas nas lojas e nos camelôs. O foguetório estará liberado. Carreatas, mesmo com o preço da gasolina nas alturas, serão profusas. Parafraseando outro comentarista esportivo de horas vagas, o dentista Gabriel Madureira Pará (já falecido), serão profusas, confusas, transfusas e bifusas.

Bares estarão cheios. Organizar-se-ão grupos para gritar, pular e comemorar cada gol. Não faltarão cachaça e cerveja. Empresas tratarão de reorganizar seus horários para que seus funcionários possam grudar olhos na TV. Ruas ficarão desertas nos horários de jogos. Na TV aberta, pouquíssimas opções. Talvez a eterna pregação dos pastores da Universal. Talvez novos milagres de Valdemiro Santiago.

Palavras russas brotarão em todos os cantos. Serão ensinadas pelos solertes repórteres plantados na Rússia. A mesma Rússia que outrora era considerada o ninho do mal. A mesma Rússia dos comunistas que comiam criancinhas depois de assá-las. O mundo mudou. Nós não.

Continuamos os mesmos palhaços de sempre. Choramos de alegria em 1958 quando as ondas do rádio traziam a Copa da Suécia. Repetimos a dose em 1962, quando o rádio (as ondas hertzianas) trouxe para cá o bicampeonato. Choramos de tristeza em 1966, quando o rádio nos informou que estávamos fora da Copa. Culpa do português Eusébio.

De 1970 para cá alternamos nossas emoções – agora pela TV. No mesmo 1970, quando conseguimos a taça Jules Rimet. Trazida para o Brasil seguiu o destino da lógica – foi roubada e derretida. O choro se repetiu em 1974, 1978, 1982, 1986. Anos de Cruyff, Beckenbauer, Paolo Rossi, Maradona e companhia.

Em todos esses anos, a mesma palhaçada. A mesma anestesia coletiva, entorpecente, confusa, bifusa e transfusa. Quando o efeito passar talvez seja tarde para a lamúria. Os políticos já terão roubado o suficiente para algumas décadas, os preços foram remarcados. A realidade voltou.

Por pouco tempo. Logo começa a campanha eleitoral. Outro circo, outros assuntos, outras histórias, outras mentiras. Pereyti k chertu etogo chempionata mira!




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