É um lastimar constante de todos – industriais, comerciantes, empresários, empregados – o fato do país estar em crise. Qualquer mazela é a crise. Calote em banco e em loja, culpa da crise. Queda em venda de qualquer coisa, culpa da crise. Demissão em fábricas é causada pela crise. Tudo é crise – e já tem até crise dentro da crise.
Culpa-se os governantes – presidente da República e seus honestos ministros pela crise. Com alguma razão. Mas vamos olhar as coisas por outro prisma. Vamos trocar de lugar com o presidente ou com algum ministro. Já trocou? Está sentado? Então vamos lá.
Você, como ministro, liga a televisão numa véspera de feriado qualquer e vê congestionamentos gigantescos nas estradas. Olha com mais atenção e nota que a maioria é carro novo, caríssimo, totalmente fora da realidade. Mais um pouco de atenção e vê que todos estão lotados. Fila no pedágio a perder de vista.
Você, como ministro, muda de canal, e aí aparece um repórter falando de uma cidade praiana qualquer, mostrando filas nas padarias e supermercados. Todo mundo gastando. Muda novamente de canal e vê outro repórter falando sobre pessoas, e a televisão coloca como imagem de fundo gente andando na rua. E todo mundo com celular de última geração, falando mais do que matraca. Gastando crédito ou pondo na conta do pós-pago.
E então você, na condição de presidente (trocamos de lugar de novo) resolve dar uma volta num shopping qualquer. Entra numa loja de eletrônicos e lá estão celulares custando o olho da cara. E, se conversar dois minutinhos com a vendedora (dissemos vendedora porque a mulherada é maioria) vai saber que os modelos que mais vendem são justamente os mais caros.
Verá, na mesma loja, que as geladeiras e fogões estão mais sofisticados e bem mais caros. Vende? Vende, afirmará a vendedora. E vende bem. A maioria na base do carnê ou dividido no cartão de crédito.
Nesse mesmo shopping qualquer, você visitará uma loja de roupas. Tudo marca de grife. Calça jeans custando 600 ou 800 reais, embora não valham mais do que 50. Não falta gente entrando e saindo dos provadores e em seguida comprando. Ou é carnê ou é cartão de crédito.
Você resolve esticar o passeio e entra numa loja de calçados. Como fosse a coisa mais natural do mundo uma vendedora informará o preço de determinado tênis, de marca conhecida: R$ 1.200. Sim, 1.200 reais por um tênis. O mesmo preço de um carro velho. E já que você está na rua, aproveita para abastecer seu carro.
Gasolina a quase quatro reais (em alguns lugares já passou disso) e todo mundo abastecendo sem reclamar, sem protestar. E, suponhamos que já é um final de semana, você resolve fazer algo diferente – levar a mulher ou a namorada num motel. Outra surpresa – em motel já tem fila de espera, apesar do preço da diária que não é diária – são só três horas.
Cá pra nós: se você fosse o presidente ou um ministro qualquer, depois de ver tudo isso acreditaria em crise? Provavelmente sua próxima ordem será de ferrar mais ainda esse povinho ignorante e submisso. Pode aumentar tudo que ninguém reclama. Talvez seja exatamente isso o que acontece. E assim passam-se os dias…

Por Anselmo Brombal




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