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Filho de peixe e filho de homem

“Aos homens deu Deus uso da razão e não aos peixes; mas neste caso os homens tinham a razão sem o uso, e os peixes, o uso sem a razão” – do capítulo II do Sermão de Santo Antonio aos Peixes.
No que deu este menino, o filho corrupto do visionário Sérgio Cabral? E o pimpolho trilionário Krupp? E a neta bilionária de William Randolph Hearst, que guerreou contra o capitalismo? E a filha do filósofo Olavo de Carvalho, dizendo horrores do papai? E o Edinho, filho do atleta do século Pelé, condenado por tráfico de drogas? E Juan Escobar? que resolveu virar a mesa contra o pai, o maior traficante do mundo. Quem diria?
Desde sempre ouvimos “filho de peixe, peixinho é” para justificar alguém que seguiu os passos do pai (ou tem a cara da mãe) ou abraçou a mesma profissão, time ou mania. Mas a inteligência humana é superior, complexa, divina, tanto que os humanos dominam o mundo animal, vegetal e mineral. No entanto, ser humano é morrer afogado nas águas ou nas lágrimas.
Sérgio Cabral pai era o típico jornalista lumpemproletário que sonhava com a justiça social. Que tirava do próprio bolso dólares para sustentar o semanário “O Pasquim”, o maior jornal nanico dos anos de chumbo. De 1969 a 1991, foi a luta e o riso daqueles que se encorajavam contra a ditadura; de cidadãos que responderam ao sufoco do AI 5, contra a censura, pela liberdade e democracia. Já o Cabralzinho (também jornalista) está na cadeia por corrupção, por conluio com criminosos, por calar a boca dos opositores com terror e censura.
Há um ano, a Veja publicou esta linha fina: “O jornalista Sérgio Cabral, pai do ex-governador do Rio, está com mal de Alzheimer. Quando perguntado sobre o que aconteceu com seu filho, preso na operação Lava-Jato, ele responde que o menino morreu ainda criança”. Bendita essa doença do “alemão”, que pode livrar a cara de um pai idealista diante do paradoxo de ter gerado um filho bilionário, antipopular e corrupto.
William Randolph Hearst – que inspirou Orson Welles a produzir o filme Citizen Kane – foi o pioneiro de um império da comunicação. Nos anos 30, possuía 28 diários e 18 revistas, escrevia roteiros e produzia filmes. Seus jornais denunciavam a perseguição nazista aos judeus. Bem, sua neta bilionária Patty Hearst foi sequestrada em 1974 e apaixonou-se pelo sequestrador. Patty foi presa, um ano depois, por assaltos, assassinatos e terrorismo executados pela guerrilha marxista que a cooptou. Seus advogados (pagos a peso de ouro) alegaram que ela estava com a “Síndrome de Estocolmo”, estado psicológico em que sequestrados sentem “simpatia e dependência” dos sequestradores.
Arndt Krupp von Bohlen und Halbach era o único herdeiro de Alfried Krupp, o Imperador do Aço, de Essen, Alemanha, a maior fábrica de armas na 2ª Guerra Mundial. O governo alemão tomou a direção da Krupp do filho herdeiro e play boy. O império tem filiais pelo mundo, inclusive em Campo Limpo Paulista. Afastado, Arndt frequentava as mais caras baladas do jet-set. Em 1969, teve um casamento de “fachada” com a princesa austríaca Henriette von Auersperg. Com câncer no rosto, Arndt Krupp permanecia horas ajoelhado em igrejas e morreu aos 42 anos em seu castelo com 72 quartos.
“Minha filha está louca”, diz o pai. No facebook e blog, Heloisa de Carvalho Martins Arribas, filha do filósofo Olavo de Carvalho, diz que ele já apontou uma arma contra os filhos e nem se importou com o abuso sexual que ela havia sofrido. As acusações foram acessadas por centena de milhares nas redes sociais. Heloisa disse que sua “Carta Aberta a um Pai” teve a intenção de desmascarar o filósofo conservador, com 185 mil seguidores no Twitter. A fofoca virou caso de polícia.

GALDINO MESQUITA
Jornalista e Professor

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