HomeJundiaíUma cidade habituada ao trabalho pra valer

Uma cidade habituada ao trabalho pra valer

Desde sua fundação, Jundiaí é uma cidade voltada ao trabalho. Dos tempos das lavouras de café dos barões às culturas especializadas trazidas pelos imigrantes italianos, como a uva, o trabalho foi marca registrada – basta se notar que os imigrantes, que aqui chegaram em estado de pobreza conseguiram se tornar donos de terras e terem seus próprios negócios.
A industrialização, iniciada no começo do século 20, mudou os hábitos e costumes da cidade. Instalaram-se aqui fábricas de tecidos, como a Argos Industrial (da família Diedericsen), a Milani, a São Jorge (família Gasparian), a Japi (da família Abdala) e depois a Filobel. Sucessivas crises econômicas e problemas com importação – principalmente a chinesa – acabou com tudo isso.
A cidade se destacou como polo metalúrgico, transformando a antiga Companhia Agrícola (então uma fábrica de enxadas e picaretas, no bom sentido) na Sifco. Em 1961, a Krupp foi inaugurada – e Campo Limpo era um distrito de Jundiaí -, a Promeca, em Várzea Paulista. Vieram também outras indústrias voltadas ao fornecimento de peças e componentes à indústria automobilística.
Nos anos 1970, com a criação do Planidil (Plano de Desenvolvimento Industrial), outras indústrias foram atraídas para a cidade, como a CBC (metalúrgica), Kanebo, Fantex, Meias Aço (texteis). Já havia uma das maiores fabricantes de madeira prensada do mundo, a Duratex, que tanto ajudou a poluir o Rio Jundiaí.
Indústrias alimentícias não faltaram, como a Cica (Companhia Industrial de Conservas Alimentícias), que depois de comprada por grupos multinacionais acabou sendo transferida para Goiás; a Ferráspari, tradicional fabricante de refrigerantes e cujo químico, Pedro Pattini, é o inventor da Turbaína.
Outra grande dos alimentos foi a Fleischmann e Royal, que funcionou na Vila Rio Branco, às margens do Rio Jundiaí. A Cereser, hoje CRS Brands, fundada pela família, ainda instalada no Caxambu. A Borin, ou a Vinagre Castelo. A tradição não morreu. Hoje a cidade conta com duas gigantes instaladas no Condomínio FazGran, a Sadia, que tem em Jundiaí seu centro de distribuição, e a Sara Lee, dedicada a embalar café.
Foi nos anos 1990 que a indústria alimentícia deu um salto gigantesco. Primeiro foi a Coca Cola, então pertencente à Spal (Sociedade Paulista de Alimentos) que se instalou às margens da rodovia Dom Gabriel. E, ironia do destino, pouco tempo depois sua rival juramentada, a Pepsi Cola, construiu uma fábrica bem em frente, do outro lado da rodovia. Hoje a fábrica pertence à Ambev. Houve ainda a Parmalat, de tempos gloriosos antes dos escândalos financeiros na Itália. Já fabricamos calçados – bons tempos os da Vulcabrás de Pfulg e Platon e da Elbena dos Magaglio.
Com tudo isso, a cidade não perdeu sua vocação para a agricultura. Continua sendo a maior produtora de uva de mesa do Brasil, além de abastecer grandes regiões com produtos hortifrutigranjeiros – mesmo se levando em conta que grandes áreas rurais, antes dedicadas ao cultivo, foram aos poucos transformadas em chácaras de lazer, e agora muitas dessas áreas abrigam condomínios residenciais.
Se na indústria não faltou trabalho, o comércio não ficou atrás. Desde que os bandeirantes aqui passaram, houve necessidade de abastecimento de suas tropas, de alimentá-los, de cuidar de seus animais. E assim surgiram as primeiras lojas, que com o tempo foram se adaptando às necessidades.
Vendia-se roupas e calçados, além de pólvora e chumbo até que chegaram os artigos de luxo, nos anos 1900. Apareceram então as lojas dedicadas a vender vestidos finos, perfumes, jóias, e novidade, relógios que podiam ser levados nos bolsos. E tudo continuou mudando, até que um judeu, Bejamin Herman, abriu na cidade O Rei das Roupas Feitas. Vendia a crédito, em suaves prestações – outra novidade.
Vieram os peg-pags, onde o cliente se servia da mercadoria, dispensando a figura do caixeiro. Os peg-pags se transformaram em supermercados, que chegaram a Jundiaí em profusão – hoje não há marca que não esteja presente, alguns com mais de uma loja.
Quando houve o declínio natural da atividade industrial (mesmo com os chineses da Foxcom fabricando em Jundiaí os cobiçados aparelhos iPhone), apareceu a logística. Foi a vez das empresas de transporte e armazenagem, que mudaram os currículos das escolas para ensinar algo novo – a logística.
A mesma logística que fez crescer o aeroporto e transformá-lo em estadual (e que logo será privatizado), trazendo para Jundiaí empresas de peso na aviação comercial. A TAM, por exemplo, tem sua oficina de manutenção no Aeroporto Estadual José Rolim Amaro, seu fundador. Há ainda outras, como a JadLog, a Two Aviation, a Wings, a Hangar 1, a Flex Aero, dentre outras.
Mais aviação precisa de mais profissionais, e novamente as escolas mudaram. Apareceram as destinadas a formar pilotos (coisa iniciada em 1941 pelo Aeroclube de Jundiaí), comissários de bordo, aeromoças. E escolas não faltam, desde as que formam doutores (a Faculdade de Medicina de Jundiaí é uma das melhores do Brasil) até as que formam profissionais mais técnicos, como advogados, engenheiros, contabilistas, professores etc.
Ninguém sabe o que será contado ou escrito daqui a outros 360 anos, mas certamente não será sobre uma cidade de vadios ou imprestáveis. Certamente será uma história de mais trabalho, tal qual nos contam nos dias de hoje.




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