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Sobre tragédias e comoções

Na semana passada todos ficaram chocados, e até comovidos, com o terrorismo em Paris. Esperava-se, a qualquer hora, uma manifestação do tipo por parte de fanáticos imbecis, para quem a vida não tem o menor valor.
Proclamam-se islâmicos, mas o Islamismo não é nada disso. Para justificar sua barbárie, interpretam o Corão como querem e como lhes convém – seria o mesmo que evangélicos entendessem que devam promover sua fé a tiros, ou que os católicos interpretassem que devam antecipar o dia do juízo final.
Como de praxe, todo mundo por aqui deu seu pitaco na tragédia. Autoridades se dizendo de luto, prestando falsa solidariedade como manda o protocolo diplomático. Mas para se condoer com tragédias não é preciso Paris. Basta passar na porta de nossos hospitais. Basta andar um pouco nas periferias.
Nossa tragédia não é como a dos terroristas, que matam muita gente em pouco tempo. Por aqui, se morre aos poucos, por falta de comida, falta de remédios, falta de hospitais. Mata-se também um pouco por dia de nossa auto estima, negando escolas, transporte decente. Mata-se no trânsito, nos assaltos.
Em Paris morreram centenas. Aqui morrem milhares, e ninguém se comove. Ninguém oferece solidariedade – falsa ou autêntica – nem se pronuncia como manda o protocolo do bom senso. Mas basta um ato terrorista a milhares de quilômetros de nós para todos se pintarem com as cores da bandeira francesa.
Aqui morrem mulheres – treze a cada dia – vítimas de parceiros, ex-parceiros ou familiares, em sua maioria. Ninguém diz uma palavra – bastam relatórios, uma fala ou outra sobre providências que jamais serão tomadas e tudo cai no esquecimento.
Aqui morrem crianças, vítimas da fome e da saúde não cuidada. Desnutridas e sem perspectivas de futuro. Quando sobrevivem, continuam relegadas aos guetos encardidos e violentos, proibidas de ler, pensar e lutar por um futuro melhor. Uma vez por ano, talvez, serão lembradas, ou serão motivo de alguma campanha. E só. Passada a moda, voltam à insignificância a que foram condenadas.
Mas é uma gracinha se pintar com a bandeira francesa. Até o Facebook proporciona, de graça, esse tipo de fantasia. Estranho que ninguém ainda lançou campanha em prol dos franceses vítimas dos fanáticos. Aqui nossos terroristas não usam metralhadoras ou granadas. Usam a caneta, moram em Brasilia. E matam silenciosamente.




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