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Editorial: O porquê de tantos por ques?

Não há criatura que nunca tenha ouvido frases do tipo “vivemos num país abençoado”, “estamos num pedaço de céu aqui na terra” e outras menos comuns, porém tão mentirosas quanto. São loas à falta de terremotos, à generosidade da terra, à índole do povo, à compreensão entre raças.
Tudo muito bonito, mas a realidade é outra. Por exemplo: em qual lugar do mundo você é obrigado a pagar 10% de caixinha para o garçom? Aqui não é aquela caixinha espontânea, como reconhecimento à atenção e ao bom serviço. É obrigatória, tabelada, cobrada. E aí de quem não paga. Quando voltar ao restaurante será tratado na ponta da bota.
Em qual lugar do mundo você é obrigado a pagar uma taxa para os guardadores de carros, os tais flanelinhas? Por sinal, trombadinhas seria mais adequado. Em alguns trechos da nossa terra querida Jundiaí, as vagas têm dono e preço. Quem não paga tem carro riscado ou pneu esvaziado.
Esses escroques não estão nas sombras. Agem à luz do dia, e pior, nas barbas da Justiça. A praça em frente ao Fórum é um caso – nos lados da rua do Rosário há um dono, nos lados da Barão outro. Taxa média cobrada por lá fica em cinco reais. Mais de um dólar para um vagabundo que não vai olhar seu carro, nem evitar seu furto caso apareça o ladrão.
Durante o governo Sarney, houve um ministro, Hélio Beltrão, que foi nomeado para simplificar a vida de todo o mundo. Uma das medidas foi não exigir mais firma reconhecida em qualquer pedaço de papel higiênico ou papel de padaria. Tenta então fazer algum negócio sem firma reconhecida. É impossível.
Somente aqui os cartórios fazem o que bem entendem. Ditam normas, esticam prazos e enchem seus papéis de carimbos. E quanto mais carimbos, mais cara fica a brincadeira. Até motéis têm leis próprias: costumam reter documentos da clientela até o pagamento da diária. Tudo errado – não existe diária de três ou quatro horas. Uma diária é de 24 horas. E reter documento é atribuição da autoridade ou seus agentes, não de recepcionista de motel.
Em qual lugar do mundo existe tanta ignorância, a ponto de se matar por paixões de futebol? Em qual lugar do mundo um menor de 18 anos pode matar, roubar e tirar férias num suposto e hipotético reformatório? Só aqui. Em outros lugares vai para a cadeia de verdade.
Em qual lugar do mundo um sujeito rouba pra valer – e estamos falando de ladrões graúdos – e depois cumpre a pena em casa? Sim, aqui existe a figura da prisão domiciliar, uma moleza e tanto que só incentiva mais roubalheira.
Talvez essa terra já tenha sido um paraíso, mas em tempos idos. Hoje nos resta saudar a mandioca, ensacar vento e esperar mais impostos – a turminha que manda quer mais dinheiro, não está satisfeita com o que já foi roubado. E você, bobão, vai pagar.

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