HomeOpiniãoEntrevistasVirgílio, um homem que nasceu para fazer o bem

Virgílio, um homem que nasceu para fazer o bem

Virgílio nasceu no meio da 1ª Guerra Mundial – junho de 1916 – em Rio das Pedras. Aos cinco anos veio para Jundiaí. Filho de italianos (Adolfo e Joana Feriotti), construiu sua vida nessa cidade e fez de tudo um pouco, deixando marcas que dificilmente se apagarão.
Formou-se perito contábil, e durante 30 anos trabalhou na maior loja da época, o Rei das Roupas Feitas. “O Rei foi fundado por Bejamin Herman, que era judeu e dono de uma memória e um jeito para negócios fora de série”, lembra ele. A dedicação ao trabalho lhe deu o cargo de gerente geral nesse tempo todo.
“O Bejamin ia para São Paulo fazer compras – conta Virgílio- e seus conterrâneos promoviam os desfiles das roupas. O Bejamin via tudo, não anotava nada, e no fim do dia fazia pedidos enormes, detalhados”. A loja, que surgiu na década de 1950, foi a primeira a vender roupas prontas em dez prestações.
“Em época de Natal, precisávamos fechar as portas, e só permitir a entrada de novos compradores quando saía um grupo”, lembra Virgílio. Mas ele não ficou só na loja – também foi dar aulas no Anchieta, a convite de seu fundador, Pedro Clarismundo Fornari. Parte do salário era pago em cotas da escola, e ele se tornou um sócio.
Na vida familiar, realizado. Casou-se com Eglantina Bertelli (já falecida) e teve quatro filhos: Eunice, que se aposentou como professora e hoje é acupuntuista, Eliana, também professora aposentada, Tânia, que é paisagista, e Enéas, formado em Química e professor no Divino Salvador.
Trabalhou também na Prefeitura, ajudando prefeitos como Manuel Aníbal Marcondes, Luiz Latorre e Vasco Venchiarutti. Durante a 2ª Guerra Mundial, Virgílio teve uma função importante para Jundiaí. “Tudo era racionado por causa da guerra, e eu era o encarregado de liberar as guias para retirada de alimentos, principalmente açúcar e farinha de trigo”, conta ele.
E por causa disso, quase todas as semanas Virgílio ia para a Capital brigar pelas guias. Resultado: não faltou pão em Jundiaí durante os anos de guerra. E mesmo o Brasil estando em guerra com a Itália, não havia encrenca entre italianos e brasileiros na cidade. “A gente ia às festas, e todos eram amigos”, lembra.
Anos depois, elegeu-se vice-prefeito, com maior quantidade de votos que o próprio prefeito, Pedro Fávaro. Na época, o sistema de eleição era diferente – votava-se individualmente nos candidatos. Virgílio ficou no cargo de 1964 a 1969. Quando teve aumento de salário não quis receber, e tratou de devolver o dinheiro, depositando no cartório local. Nunca mais quis saber de política.
Maçom mais antigo da região, Virgílio dedicou muito de seu tempo a ajudar o próximo. Ajudou o Lar Anália Franco, participou ativamente da Fratellanza Italiana (depois Casa de Saúde), foi um dos fundadores da Associação Barão de Jundiaí (o primeiro plano de saúde da região), foi diretor da Apae, e criador de bolsa de estudos para alunos carentes que queriam estudar na Faculdade de Medicina de Jundiaí.
É também fundador da Associação dos Hansenianos, diretor do Banco de Olhos de Jundiaí (hoje sob responsabilidade do Instituto Luiz Braille), um dos idealizadores do Cemitério dos Ipês e ainda fundador do SOS – Serviço de Obras Sociais.
As lembranças estão contidas num livro – A saga de um Imigrante – impresso em 2004. Nele, Virgílio conta a história do pai, que foi jardineiro, enfermeiro e diretor da Fratellanza Italiana. “Foram 500 exemplares, distribuídos a amigos e familiares”, conta.
Perto de completar um século de vida, com boa saúde e com poucos lapsos de memória, Virgílio só tem boas lembranças. “Às vezes me pego pensando em tudo o que já passei, e aí vejo que estou chegando perto dos 100 anos”, diz ele. Cent´anni!

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